Ubuntu: como a filosofia africana pode inspirar a cultura dos negócios de impacto

Anna Borges |  @aztecadesign | 04 dezembro, 2023



"Eu sou porque nós somos". "Só existo porque nós existimos". Esse é o sentido essencial do Ubuntu, um conceito filosófico que tem raízes na África, especialmente entre os povos Bantu, da região sul do continente, e enfatiza a ideia da conexão e interdependência entre todos os seres humanos. 
Segundo o filósofo sul-africano Mogobe Bernard Ramose, "nos termos dessa filosofia, os princípios da partilha, da preocupação e do cuidado mútuos, assim como da solidariedade, constituem coletivamente a ética do Ubuntu." A partir dessa cosmovisão, nossa humanidade é moldada pela nossa interação com os outros e que nossa existência está profundamente ligada à das outras pessoas. Para a educadora sul-africana Dalene Swanson, o "ubuntu é reconhecido como a filosofia africana do humanismo, ligando o indivíduo ao coletivo através da ‘fraternidade’ ou da ‘sororidade’."
Tive a oportunidade de conhecer essa filosofia sendo gestada, em uma viagem ao Malawi, para vivenciar uma experiência imersiva no projeto Nação Ubuntu, da ONG Fraternidade sem Fronteiras. Durante esse período de convivência com malawianos e também congoleses refugiados, pude perceber como o resgate de um modo de vida Ubuntu promove valores como solidariedade, compaixão, respeito e generosidade. Eles repartem o necessário para que todos tenham.
Essas pessoas vivem em situação de extrema pobreza e abandono pela ausência de políticas sociais e de saúde, com recursos mínimos recebidos de organizações humanitárias como a ACNUR (Agência da ONU para Refugiados). E só conseguem sobreviver porque partilham dessa visão de mundo comunitária, que valoriza a colaboração em vez da competição individualista, o compartilhamento de recursos ao invés da acumulação de bens, o respeito contra o preconceito, da inclusão contra a exclusão e da criação de meios que assegurem dignidade e humanidade” dentro de uma coletividade.
Ainda segundo Dalene Swanson, "o ubuntu tem uma contribuição crítica a dar como uma abordagem contra-hegemônica a uma cosmovisão globalizante que exalta a riqueza material às custas da dignidade humana e da sustentabilidade ecológica." Em outras palavras, a essência do Ubuntu enfatiza a necessidade de se apoiar uns aos outros, cultivando relacionamentos saudáveis e promovendo a harmonia social. 

Seria possível, então, pensar essa filosofia no contexto dos negócios?
O Ubuntu como cosmovisão e modo de vida é uma prática essencialmente vinculada ao contexto da comunidades tradicionais africanas e requer um regime de coletivismo para ser implementado. Essa é uma concepção que desafia o estilo de vida da sociedade contemporânea ocidental, já que se trata de uma antítese do materialismo capitalista! Para a filosofia Ubuntu, não se pode falar de economia e política sem levar em consideração os valores da comunidade e solidariedade. 
Portanto, essa seria uma nova forma de pensar e fazer política e economia, que também têm a ver com o social e com o cultural. O que estamos propondo aqui é uma reflexão sobre sua essência e valores. É a partir dessa perspectiva que esse conceito vem sendo abordado em diversos campos, como ética, política e educação, com o compromisso de assumir e promover uma consciência social coletiva e mais inclusiva. 
Em uma comunidade que segue esses princípios, as decisões importantes são tomadas em benefício de todos. Empresas podem se inspirar no Ubuntu para construir uma cultura organizacional que valoriza os funcionários, clientes e comunidades onde estão inseridas. Isso pode se traduzir em práticas empresariais socialmente responsáveis, compartilhamento de recursos e preocupação com o bem-estar coletivo.
A filosofia Ubuntu se justifica como uma prática ética e pode se alinhar ao propósito dos negócios de impacto, que têm um compromisso com a mudança positiva e sua capacidade de contribuir para a construção de uma sociedade mais justa e sustentável. São empresas que têm como objetivo principal gerar um impacto social ou ambiental positivo, ao mesmo tempo em que buscam sustentabilidade financeira. Mas quando falamos desse tipo de negócio a impressão que se tem é que uma cultura colaborativa já está incluída no "pacote". Mas isso nem sempre acontece. 
A integração desses princípios requer um compromisso genuíno, uma mudança de mentalidade e estratégias empresariais, o que pode ser um processo desafiador. Superar barreiras culturais, integrar a participação da comunidade de maneira autêntica e equitativa e alinhar os objetivos comerciais com o bem-estar coletivo são alguns dos desafios que as empresas podem enfrentar nessa jornada.
Aqui vale lembrar que a cultura de uma empresa precisa ser institucionalizada: o que você já pratica ou quer praticar e como irá trabalhar para isso? De nada vale postar frases de efeito, ou ter sua missão escrita na parede se sua empresa não vivencia tais valores. Se não for colocada em prática a cultura dificilmente irá se manter. 

Como criar uma cultura organizacional inspirada no Ubuntu?
Toda cultura precisa ser implementada e consolidada a partir da gestão da marca e do negócio. Não basta somente a cultura ser idealizada, é preciso criar rituais para que seja colocada em prática. Parte disso envolve ancorar seus valores nas tomadas de decisões.
Os princípios do Ubuntu podem inspirar e moldar a cultura organizacional dessas empresas de diferentes maneiras, promovendo valores e práticas que fortalecem o ambiente de trabalho, a colaboração e a relação com stakeholders. Destacamos aqui alguns dos principais aspectos:

1. Envolvimento com a comunidade: Os negócios de impacto social podem se envolver ativamente com a comunidade em que estão inseridos. Isso pode incluir o desenvolvimento de parcerias locais, a consulta às partes interessadas e a colaboração com organizações comunitárias para entender melhor as necessidades e prioridades da comunidade.
2. Foco nas pessoas: Um negócio de impacto social deve colocar as pessoas em primeiro lugar. Isso significa priorizar o bem-estar e os interesses da comunidade-alvo em todas as decisões de negócios. O objetivo principal deve ser melhorar a vida das pessoas e resolver problemas sociais.
3. Inclusão e diversidade: Um negócio de impacto social deve promover a inclusão e a diversidade em todas as suas operações. Isso significa garantir igualdade de oportunidades para pessoas de diferentes origens, raças, etnias, gêneros e habilidades.
4. Colaboração e parcerias: Os negócios de impacto social podem buscar parcerias com outras organizações, governos locais e sociedade civil para ampliar seu impacto. Ao trabalhar em colaboração, é possível compartilhar recursos, conhecimentos e experiências para alcançar resultados mais significativos.
5. Criação de valor compartilhado: Empresas de impacto podem adotar modelos de negócios que visam criar valor não apenas para os acionistas, mas também para as comunidades e a sociedade em geral. Isso pode ser alcançado por meio de produtos ou serviços que abordam problemas sociais ou ambientais, gerando impacto positivo.

Integrar os valores do Ubuntu ao propósito de negócios de impacto pode resultar em modelos de negócios mais inclusivos, colaborativos e voltados para o bem comum, ao mesmo tempo em que buscam eficiência e sucesso comercial. Isso não apenas atrai retorno financeiro, mas também contribui para o bem-estar das comunidades e do ambiente onde operam. Ao adotar esses princípios, os negócios podem gerar um impacto social mais amplo e positivo, impulsionando a construção de uma sociedade mais justa e sustentável.
Aqui na Azteca nos inspiramos nos princípios do Ubuntu quando compartilhamos nossos valores de colaboração, conhecimento e humanização, e também ao focar no design social como nossa abordagem. Isso significa dizer que nosso compromisso está em desenvolver projetos centrados nas pessoas, ouvindo suas perspectivas e necessidades, envolvendo-as num processo colaborativo de criação e na busca de soluções que sejam culturalmente sensíveis e relevantes para cada empresa. 

Transformar negócios sociais em marcas de impacto é o nosso movimento!





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Referências
A importância vital do "Nós". Mogobe Bernard Ramose.  Revista IHU Online. Edição 353 (2010)
Ubuntu, uma “alternativa ecopolítica” à globalização econômica neoliberal. Dalene Swanson. Revista IHU Online. Edição 353 (2010)
Gestão de pessoas e cultura: dicas para negócios de impacto. Blog Quintessa (2020)
A tradicional ética africana do ubuntu e a moderna liderança empresarial. RBAC (2016)


Imagem de capa: Nação Ubuntu ©Fraternidade sem Fronteiras

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